Quarto




Eu criei um quarto interno dentro de mim. Um lugar onde posso sentir sua falta e não me sentir mal por isso. Um lugar onde escrevo nas paredes nossos nomes e nossos sonhos. Um lugar onde ouço nossas canções e leio aquelas poesias que te escrevi durante tanto tempo. Um lugar onde você é quem abre a porta e me procura, me encontra, me renova. Eu criei esse quarto, como uma ponte imaginária de encontro entre nós. Reformei meu interior para cabermos em lembranças e pensamentos, porque talvez assim, fosse mais fácil lidar com sua ausência nos meus cafés da manhã. Meu terapeuta tem me dito que isso não é saudável e que é uma tentativa minha de fugir da realidade, mas ele não entende. Ninguém entende. Nem eu entendo esse sentimento imortal dentro de mim, que por tantas vezes parece – me puramente insistência inútil. Ontem eu descobri que você tem outra pessoa, que pensa em se casar ainda esse ano e até que vai pintar a parede do quarto da cor do meu. Doeu. E eu deixei doer. Só depois de um tempo eu fui ao meu quarto interno, e lá revivi todos os nossos momentos juntos, lembrei – me do primeiro beijo, do primeiro “eu te amo”, da primeira briga, da primeira reconciliação. Lembrei – me de tanto. Chorei bastante, lavei meu corpo. Então, com convicção mas sem nenhuma raiva, quebrei aquele espaço. Quebrei seu lugar em mim. Quebrei o resto de nós que eu havia mantido sozinha. Não foi fácil, ainda dói um pouco as vezes, um dia ou outro encontro algum corte ou cicatriz. Mas eu percebi que simplesmente não valia a pena enlouquecer, nunca valeu. Você seguiu sua vida e está tentando ser feliz. É seu direito. E o meu dever para comigo mesma é me reencontrar, me reinventar e então, ser feliz outra vez.

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