Acabou
ACABOU. Foi o que ele me disse. Sem nem perguntar se meu coração ainda batia após ouvir isso, continuou explicando seus motivos. As palavras que saiam de sua boca mutilavam minha alma. Era como se estivessem me cortando aos poucos em várias partes imperfeitas, sem anestesia, sem me preparar antes. Feito pra doer. E como dói sangrar por dentro, talvez seja o pior tipo de dor, a que não se pode colocar curativo. Eu não tive força para esboçar reação nenhuma, nem falar nada,meu cérebro formulou tantos argumentos para o convencer a não me deixar, eu queria ter dito que planejei o amar durante toda a vida, que já havia escolhido a cor da parede da nossa cozinha e que tinha certeza de que ele seria meu melhor amigo sem prazo de validade. Eu queria ter dito que fiz durante tanto tempo muito mais por ele do que por mim, que não me arrependia disso, que o daria muito mais se tivesse chance. Eu queria ter dito que as memórias agora passavam na minha mente, como um jato de dor e desespero, desde a lembrança do primeiro olhar até a da última noite de amor. Queria ter contado de todas as vezes em que brigamos e eu me senti enterrada, de todas as vezes que uma garota bonita passava perto de nós e meu coração gelava de insegurança com medo dele me trocar. Queria ter dito que havia aprendido a cozinhar aquela torta que ele tanto gostava de comer e que iria fazer no próximo fim de semana. Eu queria ter conseguido falar tanto. Queria ter contado dos meus poços escuros, explicado porque as vezes eu me sentia tão mal comigo, esclarecido meus motivos para ter medo de uma rejeição. Queria ter mostrado o bolo que encomendei para o aniversário que estava a chegar. Mas meu coração não me deixou falar. Meu coração engoliu minha voz. Era desespero, era dor, mas também era calma, silêncio. Era um silêncio fúnebre, sabe? Como se o caixão tivesse acabado de descer e eu finalmente pensasse que não havia mais o que fazer. Era o fim. Era uma calma enlutada, torturante. Ele esperava gritos e choro, pude ver a surpresa em seu rosto quando me viu sentar no sofá e fechar os olhos. Eu chorei por dentro primeiro. Como se as lágrimas interiores pudessem acalmar a sede da minha alma. Uma sede que pedia amor, mas encontrou abandono. Demorei um tempo para abrir os olhos, senti sono, era como morrer estando viva. De certa forma, aquilo era sim um enterro. O enterro daquele amor que foi minha vida durante tanto tempo. O enterro de algo que nunca deveria morrer. Quando abri os olhos e o olhei, percebi que não valia a pena tentar reverter aquela decisão. Eu não merecia um amor forçado. Eu não merecia desenterrar um defunto e tentar o ressuscitar para ser amada. Mulher nenhuma merece amar cadáveres. O amor havia morrido, ainda que apenas da parte dele. E eu precisaria tornar – me assassina do amor que ainda estava em mim, para poder seguir. Levantei do sofá, dei um beijo em seu rosto e abri a porta. Ele perguntou se eu não ia falar nada e eu respondi: “Adeus.” Aquela palavra saiu como um vômito. Desentupiu o ar preso no meu peito. Fechei a porta, o enterro havia acabado. Agora sim eu podia chorar. Amor não devia acabar. Amor devia ser o que nós poetas dizemos que ele é. Mas nem nós, os poetas, sabemos amar. Amor também acaba. E ainda que eu jure que nunca mais vou amar de novo, eu sei que é mentira, como se o fim de um amor exalasse em nós o cheiro de outro. Talvez, o amor próprio, que é o único que pode nos salvar.

Comentários
Postar um comentário