Ela foi embora
Nós poderíamos ter sido inspiração para uma daquelas composições gigantes de Renato Russo, mas ela foi embora. Sem nunca nem ter ouvido a história de Eduardo e Mônica, ela foi embora. Renato morreu e ela não voltou. Ela nem mesmo quis ouvir o rock que eu curti em 86, nem entender meu jeito largado de ser. Ela tinha o coração gelado, mas o corpo em chamas. Eu me fiz em pedaços, implorei seu amor, mas ela não ficou. Riu e me beijou. Aquele beijo era droga. Muito pior que maconha ou cocaína. Eu não podia comprar, ela não queria saciar. Aquele beijo me tirou o chão, me levou no céu, me fez flutuar. Eu, um cara de quase trinta, nunca tinha sentido nada parecido. O que eram as paixõezinhas adolescentes perto daquilo? Eu poderia rodar o mundo inteiro, assaltar um banco, matar alguém por aquela mulher. Era frenético e desesperador. Era intenso e leve. Era paradoxal. Não tinha estrada, ela era curva. Não tinha saída, ela não tinha dono. Era dona de si mesma. Foi o que me disse. Mas me beijou. Me beijou em uma mesa no canto daquele bar que eu sempre fui, o mesmo bar de sempre, o mesmo garçom trazendo a mesma bebida, com a mesma música tocando, mas eu olhei para ela e tudo mudou. Não, ela não estava vestida para matar. Não tinha um decote sensual nem as costas à mostra. Tinha um coque no cabelo, aquele cabelo vermelho que me chamou atenção e uma camisa bem solta, que quase cobria o shortinho branco que vestia, um all star bem surrado que me fez pensar que talvez Nando e Cássia também pudessem escrever sobre nós. Mas o nós não existia, ela era dela, se pertencia – foi o que escutei. Era sensual no pouco, no jeito de chamar o garçom, na forma de levantar o copo, no caderno que abria no meio de um bar lotado, fazendo de um point uma biblioteca, mas o que ela não poderia fazer? Com aquele sorriso, ela faria o que quisesse e ninguém conseguiria falar nada. Nossa conversa de no máximo quarenta minutos valeu por uma vida inteira, eu poderia casar no dia seguinte se ela topasse. Mas ela não tinha interesse em prisões românticas, sua alma era livre – e como voava lindo. Aquela noite zerou minha vida, não tinha um segundo em que não pensasse nela. Talvez fosse patológico, pensei. Os médicos não puderam me ajudar, mal de amor não se cura com remédios, eu nem mesmo sei se um dia cura. Só sei que doía desesperadamente. E um dia, em um desses bares que costumamos ir quando estamos na fossa, tocando uma música ao vivo, eu a vi com o mesmo caderno aberto. Sentada em algum canto daquele lugar. Pensei em ir correndo e sequestra – lá, mas eu não saberia conviver com a ausência do amor dela. Amor esse que ela me disse não se permitir sentir. Dizia que o amor doía muito e que não gostava de sentir dor. Eu sorri, sem graça, e perguntei o que fazer quando já não se pode controlar o que sente.
— Finja – ela disse – finja tanto, até que você mesmo comece a acreditar no seu fingimento e passe a ser verdade.
Ela era firme e decidida, parecia ter sido magoada e escolheu se trancar dentro da sua liberdade. Sem ponderar nem medir consequências a beijei, ela correspondeu. Me abraçou devagar, encostou seu corpo bem junto ao meu e suspirou.
— Eu quero te roubar para mim… – eu sussurrei.
— Já me roubaram e eu nunca mais me tive. – ela respondeu calmamente.
— Mas você me disse que era sua… – questionei surpreso.
— Eu finjo, finjo a tanto tempo que falta pouco para que seja verdade.
Me deu um selinho demorado, como para sugar o meu amor. E foi embora. Ela foi embora. Eu a queria tanto para mim, mas ela era de outro. Talvez dela, talvez da vida, talvez do mundo. Mas com certeza, de outro. Até hoje eu a amo em secreto, no escuro, na sombra, nos dias nublados. Às vezes penso que sou louco, mas já havia dito Renato: Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?

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